O esquema é mais ou menos o mesmo. No palco, com a apresentadora, ficam as vítimas de algum drama privado, sempre uma questão delicada. O debate é observado por uma pequena plateia. Na estrutura, a versão brasileira e a lusa são exatamente iguais. Mas as dissonâncias culturais — mesmo sendo Portugal um país irmão — se mostram imensas e fazem a diferença.
No SBT, ouve-se uma gritaria constante. "Casos de família" é uma arena de barracos. Christina Rocha se dedica a dois tipos de intervenções paradoxais simultâneas: alimenta a fogueira e acalma os ânimos, organizando a confusão. Faz sentido. A atração é movida por um falso espírito conciliatório. A apresentadora tem de manter a chama do ódio acesa, mas o espetáculo precisa continuar. Berrar é permitido e até ajuda a confusão. Mas se alguém partir para as vias de fato, pode estragar o show.
Em Portugal, é tudo diferente. Não tem gritaria e a coisa rola bem mais densa, levada a sério. É um investimento na angústia profunda. Dia desses, por exemplo, Hélder, de quase 40 anos, esteve no "Boa tarde" com sua mãe, Helena. Seu drama: até os 18, ele nunca soube quem era seu pai, apesar do apelido de "filho do pasteleiro", dado pelos meninos da rua. Quando descobriu (a mãe revelou a verdade), nunca conseguiu encontrá-lo. Até hoje, busca a figura paterna. Foi comovente.
Para o espectador mais suscetível ficou difícil até segurar as lágrimas. Conceição Lino fez uma escavação implacável no coração do rapaz. Quantas perguntas difíceis! Ele respondeu a todas, enquanto a mãe, uma senhora silenciosa e triste, olhava para o chão. Sem que o mistério do paradeiro do pasteleiro tivesse sido revelado, o programa chegou ao fim. De alguma maneira, desvendar o caso era o de menos. Todo aquele drama já faz a cabeça do espectador.
Fonte: Patrícia Kogut (O Globo)
Nenhum comentário:
Postar um comentário