
Íris Abravanel, mulher do dono do SBT, Silvio Santos, já havia encarado
várias aventuras ao lado do marido. Havia sido amiga, afilhada (o
empresário foi padrinho do primeiro casamento dela), namorada, virou
esposa e mãe de quatro filhas dele. Cinco anos atrás, tornou-se também
sua funcionária ao dar o pontapé inicial na carreira de autora de
novelas no SBT. Desde então, a teledramaturgia da emissora paulista foi
revitalizada. Mil empregos diretos e indiretos foram gerados por esse
setor. Quinta trama de Íris, "Carrossel" é sucesso absoluto entre as
crianças e incomoda a concorrência. O SBT tem ficado em segundo lugar no
horário nobre graças à média de 12,5 pontos de audiência alcançada pela
novela, no ar desde maio. O bolso de Silvio Santos também inflou. A
perspectiva de faturamento de "Carrossel", que ficará no ar até meados
de 2013, é de R$ 100 milhões. Natural do Rio de Janeiro, Íris, aos 63
anos, 18 a menos do que o marido-patrão, trabalha dez horas por dia para
entregar seis capítulos ou 240 páginas de roteiro por semana.
Istoé - Onde busca inspiração para escrever ?
Íris Abravanel -
Impossível escrever uma história e não colocar um pouco do que você
viveu, de livros que leu, de filmes a que assistiu. Uma vez cortei um
pouco o cabelo das meninas (filhas) achando que isso fortaleceria o
cabelo delas. As quatro chegaram à escola com cabelos tipo tigelinha.
Aí, voltaram para casa p. da vida. Revivi um pouco disso em "Carrossel".
Nessa novela, insisti em cenas que mostram as crianças mais distantes
de computadores, games, e mais dispostas a criar brincadeiras.
Istoé - Coisas que a sra. fazia com as suas filhas ?
Íris
Abravanel - Sim. Então, você vê chapéu sendo feito com jornal e coisas
do tipo, para despertar a criatividade delas. Mexer com fantasia da
criança é sempre saudável. Quando somos pequenos, criamos um amigo
imaginário e isso é positivo porque, assim, resolvemos conflitos,
diferenciamos o bem e o mal. A gente está conseguindo passar coisas
edificantes para a criançada. Fui professora durante cinco anos. Sempre
gostei de trabalhar com criança.
Istoé - Por que resolveu iniciar uma nova carreira perto dos 60 anos ?
Íris
Abravanel - Eu vinha percebendo a dificuldade do Silvio em contratar
autores de novelas. Os melhores estavam na Globo ou na Record. E o
contrato do SBT com a Televisa (emissora mexicana parceira do SBT) havia
terminado. Aí, em um jantar, ele lamentava a dificuldade que vinha
enfrentando. E eu disse: "E se eu escrever ?" Na hora, eu pensava em
resolver um problema dele. E acabei ganhando um problemão ! Sofri
preconceito no início. Muita gente dizia : "Ela vai ficar dois meses
nessa e não vai aguentar, vai para o shopping". Mas, como diz o Chaves
(personagem de uma série televisiva mexicana), "não contavam com a minha
astúcia" !
Istoé - Qual foi a reação do Silvio Santos ?
Íris
Abravanel - Quando perguntei ao Silvio o que achava de eu escrever
novelas, ele me disse para ir em frente, mas para não retroceder depois.
O nome da primeira novela, "Revelação", foi o Silvio quem deu. Porque
(eu fazer novela) seria uma revelação (risos). No começo, eu não era
contratada pelo SBT. Trabalhei seis meses sem receber nada, até provar
que eu seria capaz. Eu tinha um computador que não era de última, mas da
primeira geração (risos). Eu fui montando a minha equipe com pessoas
que conhecia. Éramos um exército de pernetas ! Uma das colaboradoras,
por exemplo, de professora de matemática passou a fazer cenas. Nós
almoçávamos na minha casa. Foram seis meses de deserto, sem nenhum
recurso. Hoje, sou funcionária do SBT. Tenho registro em carteira. Fazia
pelo menos 30 anos que não tinha registro. Tive apenas um aumento,
muito reivindicado, em cinco anos no SBT. Agora, com "Carrossel", estou
pensando em negociar de novo. Eu nunca tinha ido, por exemplo, sozinha
ao SBT
Istoé - E como foi a experiência ?
Íris
Abravanel - Cheguei na portaria um dia para uma reunião. Disse que eu me
chamava Íris e tinha uma reunião marcada. Aí, me disseram : "Pois não,
pode encostar ali do lado e aguardar." E foi o que eu fiz. Fiquei ali
aguardando até que a pessoa com quem eu ia falar avisou na portaria: "Vocês sabem quem é que está aí esperando ?" Não sei bem o que
aconteceu, ao certo, mas as portas se abriram e eu entrei (risos). E aí
começou o respeito por mim, desde a portaria. Nunca falei "você sabe com
quem está falando ?" para alguém. Cada um no seu lugar, né ? Logo
depois, a minha equipe toda passou a ter crachá para entrar no SBT. Aí,
não queriam dar um para mim, disseram que eu não precisaria. Eu chiei : "Como não preciso ? Já fui barrada (risos) !" Aí, fui lá tirar foto e
exigi crachá.
Istoé - Como foi iniciar uma carreira na empresa do marido ?
Íris
Abravanel - À medida que você vai se relacionando, as pessoas vão
esquecendo quem está por trás de você e passam a enxergar o lado
profissional. Algumas pessoas, quando veem que há coisas a serem
modificadas no meu trabalho, ainda têm dificuldade de dizer isso para
mim. Mas com o tempo a gente (ela e Silvio) vira doce de festa e as
pessoas se acostumam com a nossa figura.
Istoé - Ainda consegue administrar a casa como fazia antes ?
Íris
Abravanel - Todos os nossos funcionários estão com a gente há mais de
dez anos. Então, cada um já sabe o que fazer e eu não preciso ficar em
cima. A coisa só muda quando a gente viaja. Aí, eu e o Silvio
arregaçamos a manga. Eu faço a comida e o Silvio limpa a cozinha. Ele
limpa a cozinha melhor do que eu. Limpa o fogão direitinho... Ele gosta
de fritar bife. Tem o ponto da carne lá que ele gosta. E ele ama o
Walmart, porque nesse supermercado tem de tudo.
Istoé - Gostou quando Silvio assumiu os cabelos grisalhos na tevê ?
Íris
Abravanel - Eu estou acostumada, porque, quando a gente viaja, ele está
assim. Mas achei o máximo ele se mostrar do jeito que é de verdade.
Sabe por que gosto do grisalho ? Porque o tom de pele dele fica mais
suave, bonito. Mas tenho a impressão de que ele voltou a pintar o cabelo
por causa da opinião das pessoas também.
Istoé - O que aprendeu com o episódio do sequestro da sua filha Patrícia ?
Íris
Abravanel - Doía muito (quando a filha estava em poder do sequestrador,
em 2001). É como se tivesse arrancado um pedaço de mim sem anestesia.
Com o sequestro, aprendi a demonstrar mais amor, carinho, pelas pessoas
enquanto elas estão ao nosso lado. Disseram que a Patrícia estava com
síndrome de Estocolmo (quando a vítima passa a ter simpatia e até
sentimento de amor ou amizade pelo seu agressor). Ela não teve síndrome
nenhuma. Ela, naquele momento, enxergou a diferença da vida de dois
jovens, a dela e a dele (sequestrador). Esse episódio não mudou nada em
nossas vidas. Continuamos vivendo sem seguranças por perto, nada. Nossa
maior segurança é Deus mesmo.
Istoé - A sra. é evangélica. Como se deu a sua conversão ?
Íris
Abravanel - Foi dentro da minha casa. Eu não sabia, mas todos os meus
funcionários eram evangélicos. Fui convertida pelo copeiro de casa, o
José. Ele se alfabetizou pela Bíblia e espalhava versículos pela casa.
Eu olhava aquilo e achava legal, mas para o José. Em 8 de outubro de
1998, decepcionada com todas as outras religiões que havia
experimentado, pedi para Deus que, se ele existisse, desse uma prova de
sua existência. Estava em casa e pedi um café. O José me trouxe e logo
foi dizendo: "Olha, dona Íris, ainda bem que a senhora me chamou. Eu
estava lá no seu jardim e o meu Deus mandou eu te dizer que a senhora é
muito amada por Jesus". Comecei a chorar. Aí, ele me disse que todos os
funcionários se reuniam para orar por mim e pela minha família. No dia
seguinte, fui atrás de uma "Bíblia" para saber quem é Jesus. O José quis
me dar a dele. E eu não quis. Aí, ele me disse: "Dona Íris, a senhora
tem tudo. Esse é o melhor presente que eu posso lhe dar e a senhora não
quer aceitar?!" Foi a primeira lição que tive. Como somos soberbos.
Istoé - Frequenta alguma denominação evangélica específica ? A sra. tentou se converter ao judaísmo ?
Íris
Abravanel - Não sigo uma igreja específica. Nunca imaginava que um dia
eu seria crente na vida. Mas, desde a conversão, eu me enfiava em
qualquer garagem onde se falava de Jesus. Queria aprender. A primeira
igreja em que estive foi a Assembleia de Deus. A segunda, a Congregação.
Lembro que fui de saia e "Bíblia" na mão (risos). Mas não tentei me
converter ao judaísmo. Eu nunca seria judia. As meninas (filhas)
aprenderam hebraico e fizeram Bat Mitzvá, acho bacana. O Silvio é judeu,
vai à sinagoga, mas ele está quase vendo que o Messias...quando a gente
ora, o Silvio se sente muito bem. Às vezes, ele pede para a Patrícia
orar.
Istoé - Como conheceu o Silvio ?
Íris Abravanel - Eu o
conheci em uma praia, no Guarujá (SP). Eu ainda dava aula e estava
noiva. Tinha de 18 para 19 anos e ele o dobro da minha idade. Foi uma
tragédia, porque, quando o meu pai soube, ficou doente. A gente começou
uma amizade e demorou para a gente ficar junto. Eu me casei, antes, e o
Silvio foi padrinho. Me separei depois de cinco anos. A família era
contra eu me relacionar com homem de televisão.
Istoé - Quem de vocês dois foi mais tolerante em relação às idiossincrasias do companheiro ?
Íris
Abravanel - Eu era uma pessoa bem difícil, geniosa, meu ponto de vista
tinha de prevalecer sempre, era teimosa. Hoje não. Como o Silvio, que
também mudou, e hoje administra melhor o ciúme que ele sentia, por
exemplo.
Istoé - A separação que vocês tiveram nos anos 1990 tinha a ver com o ciúme também ?
Íris
Abravanel -Sim. Eu me sentia sufocada. Ele era muito ciumento, de
controlar passo a passo. Depois desse episódio, ele aprendeu a
administrar melhor. Foi uma briga de foice, de gigantes, eu com
estilingue e ele com um exército (advogados foram contratados por ambas
as partes). Depois que reatamos (permaneceram separados por cerca de
seis meses), eu disse a ele: "Agora, não me separo nunca mais. Você vai
ter de me aguentar para o resto da sua vida".
Fonte: Istoé